No Dia da Libertação, celebrado em 15 de agosto, entender os 35 anos de domínio colonial japonês e suas marcas na língua, na cultura e na vida de milhões de coreanos ajuda a explicar por que chamar cada cultura pelo nome certo está longe de ser apenas uma discussão de fandom
Se você acompanha produções coreanas, é bem provável que a palavra dorama já faça parte do seu vocabulário sem que você pense muito sobre ela. Está no TikTok, no Instagram, nos grupos de fãs, nas páginas especializadas e até na comunicação de marcas e plataformas. No Brasil, o termo pegou de um jeito tão forte que acabou virando quase um sinônimo de série asiática. Pousando no Amor (2019), Beleza Verdadeira (2020) e Itaewon Class (2020) viraram doramas e, no meio disso, produções chinesas, japonesas e tailandesas também foram parar na mesma caixinha.
Talvez você também fale assim e nunca tenha parado para pensar que existe algo estranho nessa história. Dorama vem do japonês ドラマ (dorama), uma adaptação da palavra inglesa drama. No Japão, o termo faz todo sentido. Quando estamos falando de uma produção coreana, porém, já temos uma palavra conhecida no mundo inteiro para isso: K-drama, abreviação de Korean drama. Parece uma diferença pequena, eu sei, mas ela fica bem menor quando a gente olha para a história desses dois países.
No dia 15 de agosto, a Coreia celebra o Gwangbokjeol (광복절), o Dia da Libertação Nacional. Foi nessa data, em 1945, que chegou ao fim o domínio colonial japonês sobre a península coreana, iniciado oficialmente em 1910. Em 2026, 81 anos nos separam daquele momento, mas isso não significa que tudo o que aconteceu durante aqueles 35 anos ficou enterrado no século passado. Algumas discussões continuam vivas nas relações entre Coreia e Japão, sobreviventes passaram décadas buscando reconhecimento e muitas das marcas desse período ainda aparecem na maneira como os coreanos contam a própria história.

Antes que alguém entenda errado: ninguém está dizendo que chamar Pousando no Amor de dorama é comparável aos crimes cometidos durante o colonialismo japonês. Não é, e fazer essa comparação diminuiria a dimensão da violência sofrida pelas vítimas. A conversa aqui é bem mais simples. Se a gente ama música coreana, assiste a séries coreanas, compra livros coreanos, aprende Hangul, experimenta comida coreana e acompanha artistas coreanos, talvez também seja hora de abandonar aquela velha mania de tratar a Ásia como se todo mundo ali compartilhasse a mesma cultura.
Para entender por que isso importa tanto, precisamos voltar um pouco no tempo. Muito antes de K virar uma letra reconhecida no mundo inteiro por causa do K-pop e dos K-dramas, houve uma época em que preservar aquilo que era coreano – inclusive a própria língua – se tornou uma forma de resistência.
Muito antes de K-pop e K-dramas conquistarem o mundo, a Coreia passou 35 anos sob um domínio que tentou enfraquecer aquilo que a tornava coreana
A ocupação não começou magicamente em 1910. Nas décadas anteriores, o Japão já ampliava sua influência sobre a península em meio às disputas entre potências pela região. Depois de vencer a Guerra Russo-Japonesa, entre 1904 e 1905, o Império Japonês saiu ainda mais fortalecido e, em novembro de 1905, impôs o Tratado de Eulsa, que transformou o então Império Coreano em um protetorado japonês e retirou grande parte de sua autonomia diplomática.
O imperador Gojong tentou resistir ao avanço japonês e buscar ajuda internacional. Em 1907, enviou secretamente representantes coreanos à Segunda Conferência de Paz de Haia para denunciar a perda de soberania do país. A delegação, porém, não conseguiu participar oficialmente da conferência e, pouco depois, Gojong foi forçado a abdicar em favor de seu filho, Sunjong. Ou seja, quando chegamos a 1910, a autonomia coreana já vinha sendo desmontada havia anos.

Em 22 de agosto de 1910, foi assinado o Tratado de Anexação Japão-Coreia, colocado em vigor no dia 29. A península passou a ser administrada pelo Governo-Geral da Coreia, estrutura colonial ligada ao Império Japonês, e permaneceria nessa condição até agosto de 1945.
Falar simplesmente que “o Japão ocupou a Coreia”, porém, não consegue mostrar o tamanho do que isso significou na vida das pessoas. O domínio colonial interferiu na administração, na economia, na propriedade de terras e na educação. Conforme o Japão ampliou suas guerras pela Ásia, principalmente a partir dos anos 1930, os coreanos também passaram a ser incorporados cada vez mais ao esforço econômico e militar do império.
Nos últimos anos da ocupação, essa pressão atingiu de maneira ainda mais intensa elementos que parecem muito pessoais: o idioma que alguém usava, o nome que carregava e aquilo que uma criança aprendia na escola. Antes de chegarmos a essa parte, porém, vale conhecer uma menina de 16 anos que ajuda a colocar um rosto em uma história que às vezes parece distante demais para quem está lendo do Brasil em 2026.
Yu Gwan-sun tinha apenas 16 anos quando se tornou um dos rostos de uma revolta que levou milhões de coreanos às ruas
Em 1º de março de 1919, manifestações pela independência começaram em Seul e rapidamente se espalharam por diferentes regiões da península. Era o início do Movimento Primeiro de Março, o Samil Undong, uma das maiores mobilizações contra o domínio japonês.

Coreanos foram às ruas carregando a Taegeukgi, a bandeira do país, e gritando “manse”, expressão que ficou associada naquele contexto ao desejo de independência. Os números variam conforme a fonte e a metodologia utilizada, mas estimativas amplamente citadas na Coreia falam em aproximadamente 2 milhões de participantes ao longo das manifestações. Pense no tamanho disso para uma população que, naquele período, estava na casa dos 20 milhões.
A repressão japonesa deixou mortos, feridos e milhares de presos. Uma das pessoas que entraram nessa história foi Yu Gwan-sun (유관순), estudante da Ewha Hakdang, em Seul. Ela tinha apenas 16 anos quando o movimento começou.

Depois que escolas foram temporariamente fechadas durante os protestos, Yu voltou para sua região, próxima a Cheonan, e ajudou a organizar uma manifestação no mercado de Aunae, em 1º de abril de 1919. A repressão matou participantes do protesto, incluindo os pais dela, e Yu acabou presa.
Ela continuou defendendo a independência mesmo na prisão e foi levada para Seodaemun, em Seul. Ali, sofreu tortura e maus-tratos antes de morrer em 28 de setembro de 1920, aos 17 anos. Com o passar das décadas, seu nome se tornou um dos maiores símbolos da resistência coreana ao domínio japonês.
É por isso que vale conhecer pessoas como Yu. Quando escrevemos “35 anos de ocupação” ou “milhares de vítimas”, existe uma distância confortável nesses números. Quando sabemos que uma das pessoas presas era uma menina de 16 anos que perdeu os pais durante uma manifestação e morreu antes de completar 18, fica um pouco mais difícil enxergar esse período apenas como uma data para decorar.
O Movimento Primeiro de Março não conseguiu libertar a Coreia naquele momento. O domínio japonês continuaria por mais 26 anos, mas a mobilização fortaleceu movimentos independentistas e contribuiu para a criação, em abril de 1919, do Governo Provisório da República da Coreia, em Xangai, que teve entre seus nomes figuras como Kim Gu e Syngman Rhee.

Enquanto alguns resistiam nas ruas e outros tentavam organizar a independência fora da península, havia outra disputa acontecendo dentro das escolas. Ela não envolvia apenas armas ou manifestações, mas algo que você provavelmente encontra hoje em letras de K-pop, mensagens de idols e legendas de K-drama: a própria língua coreana.
Hoje muita gente aprende Hangul para entender o bias, mas houve uma época em que o coreano perdia espaço até dentro das escolas
Existe uma frase muito repetida nas redes sociais de que “era proibido falar coreano durante a ocupação japonesa”. A realidade é um pouco mais complexa e vale explicar direito justamente porque não precisamos exagerar a história para entender a violência daquele período.
As políticas linguísticas mudaram bastante entre 1910 e 1945. O japonês ganhou posição privilegiada na administração e na educação desde o início da colonização, enquanto o coreano ainda permaneceu presente em determinados momentos e espaços. A pressão para assimilação, no entanto, foi aumentando e ficou especialmente agressiva a partir do final da década de 1930.
Depois de 1937, com a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a intensificação do esforço de guerra, ganhou força uma política associada à ideia de Naisen Ittai, que defendia Japão e Coreia como “um só corpo”. Na prática, isso significava formar súditos cada vez mais identificados com o Império Japonês e reduzir o espaço de características consideradas especificamente coreanas.

O japonês passou a dominar ainda mais o ambiente escolar, enquanto o ensino do coreano foi drasticamente reduzido nos últimos anos da colonização. Estudantes eram incentivados e, em diferentes contextos, pressionados a falar japonês. A educação também reforçava a lealdade ao imperador e ao Estado imperial. Por isso, é mais correto dizer que houve um processo crescente de marginalização e repressão da língua coreana, especialmente nos anos finais da ocupação, do que afirmar que qualquer pessoa falando coreano na rua durante todos os 35 anos seria automaticamente presa.
A tentativa de assimilação chegou até aos nomes. A política conhecida como Sōshi-kaimei, introduzida em 1939 e implementada a partir de 1940, incentivou e pressionou famílias coreanas a registrar nomes segundo padrões japoneses. Mesmo sem funcionar como uma ordem universal aplicada exatamente da mesma maneira a todos, as pressões sociais e administrativas levaram uma enorme parcela da população a aderir.

Talvez agora fique mais fácil entender por que língua e identidade aparecem tanto quando falamos desse período. Não era apenas sobre quem estava sentado no governo. Era sobre qual idioma uma criança aprenderia, como uma família se apresentaria e o que continuaria existindo como algo reconhecidamente coreano.
E algumas pessoas levaram essa preocupação tão a sério que acabaram presas por algo que hoje pareceria absolutamente comum: tentar fazer um dicionário.
Enquanto hoje o Hangul aparece em telões pelo mundo, estudiosos foram presos nos anos 1940 enquanto tentavam preservar a língua coreana
Em 1929, estudiosos ligados à organização que posteriormente se tornaria a atual Korean Language Society começaram a trabalhar na compilação de um grande dicionário da língua coreana. O grupo também pesquisava ortografia e vocabulário e, em 1933, publicou uma proposta de ortografia unificada.
Para quem olha de fora, organizar palavras pode parecer uma atividade puramente acadêmica. Dentro de uma colônia submetida a políticas cada vez mais agressivas de assimilação, preservar uma língua também significava preservar a possibilidade de uma identidade nacional continuar existindo.

Em 1942, autoridades coloniais japonesas reprimiram integrantes da organização no episódio conhecido como Korean Language Society Incident. Diversos estudiosos foram presos. Entre eles estavam Yi Yun-jae, que morreu em 1943, e Han Jing, que morreu em 1944 durante o encarceramento. O projeto do dicionário foi interrompido e só pôde continuar depois da libertação.
Se você começou a estudar Hangul porque queria entender o que seu idol escreveu no Weverse ou porque cansou de esperar a legenda de uma live, existe algo especialmente emocionante nessa história. Hoje o alfabeto coreano aparece em estádios lotados, capas de álbuns, séries, livros, restaurantes e cursos no Brasil. Menos de um século atrás, havia pessoas sendo perseguidas enquanto tentavam garantir que aquela língua continuasse registrada para as próximas gerações.
Só que a tentativa de assimilação cultural é apenas uma parte do que aconteceu durante aqueles 35 anos. Conforme o Japão ampliava suas guerras pela Ásia, o domínio colonial também passou pelos corpos de milhares de pessoas, e poucas histórias deixam isso tão evidente quanto a das mulheres e meninas que foram colocadas em um sistema chamado, de maneira quase cruelmente suave, de “estações de conforto”.
O nome “mulheres de conforto” parece muito menos violento do que aquilo que milhares de mulheres e meninas realmente viveram
A expressão “mulheres de conforto” vem do termo japonês ianfu e continua sendo utilizada para identificar as vítimas de um sistema que acompanhou a expansão militar japonesa pela Ásia, principalmente a partir da década de 1930. Só que conforto é uma palavra que não chega nem perto de explicar o que aconteceu ali.
Mulheres e meninas de diferentes territórios, entre elas coreanas, chinesas, filipinas e indonésias, foram submetidas à exploração sexual em instalações ligadas às forças militares japonesas. As estimativas sobre o número total de vítimas variam bastante, indo de dezenas a centenas de milhares, e a falta de documentação completa torna impossível estabelecer um número definitivo.

Na Coreia colonial, algumas mulheres foram enganadas com promessas de trabalho; outras sofreram coerção, tráfico ou foram levadas contra a própria vontade. Por isso, relatórios internacionais e pesquisadores também utilizam a expressão escravidão sexual militar, que deixa bem mais claro o tipo de violência que as sobreviventes relataram.
Também é importante dizer quem estava por trás desse sistema. As Forças Armadas do Japão Imperial, especialmente o Exército Imperial Japonês, tiveram participação no estabelecimento, supervisão e administração das chamadas estações em diferentes regiões. Em 1993, a Declaração Kono, apresentada pelo então secretário-chefe do gabinete japonês Yohei Kono, reconheceu o envolvimento das autoridades militares e admitiu que, em muitos casos, mulheres haviam sido recrutadas contra a própria vontade.
Durante décadas, muitas sobreviventes não conseguiram falar publicamente sobre o que viveram. Existia o trauma, mas também um enorme estigma social colocado justamente sobre as mulheres que haviam sofrido violência. Foi apenas em 1991 que um nome mudaria de vez a maneira como essa história era discutida na Coreia.
Kim Hak-sun falou em 1991 e, depois de décadas de silêncio, outras sobreviventes perceberam que também podiam contar suas histórias
Em 14 de agosto de 1991, Kim Hak-sun (김학순) tornou-se a primeira sobrevivente coreana amplamente reconhecida a contar publicamente, usando o próprio nome, que havia sido vítima do sistema das chamadas “mulheres de conforto”. Seu depoimento abriu espaço para que outras mulheres também falassem e transformou uma história que durante décadas havia permanecido escondida em uma questão internacional de direitos humanos.

Kim morreu em 1997, mas outras sobreviventes continuaram cobrando reconhecimento e reparação. Kim Bok-dong, que morreu em 2019, tornou-se uma das ativistas mais conhecidas internacionalmente. A partir de 1992, manifestações semanais diante da Embaixada do Japão em Seul passaram a cobrar respostas do governo japonês e se transformaram em uma das imagens mais conhecidas dessa luta.
Existe até uma coincidência de datas que torna agosto especialmente importante para essa memória. O 14 de agosto, data do testemunho público de Kim Hak-sun, passou a ser lembrado internacionalmente em memória das vítimas do sistema. No dia seguinte, 15 de agosto, os coreanos celebram a libertação.
As discussões não ficaram presas aos anos 1990. Em 2015, os governos de Coreia do Sul e Japão anunciaram um acordo que pretendia resolver a questão de maneira “final e irreversível”, acompanhado de uma declaração do então primeiro-ministro japonês Shinzo Abe e de recursos destinados a uma fundação de apoio. Sobreviventes e organizações, porém, criticaram o acordo por considerarem que as próprias vítimas não haviam sido ouvidas adequadamente durante a negociação.
É uma das razões pelas quais não dá para contar essa história como se 15 de agosto de 1945 tivesse colocado um ponto final em tudo. A ocupação acabou, mas sobreviventes continuaram vivendo com suas consequências durante décadas. E elas não estavam sozinhas: nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, homens e mulheres coreanos também foram mobilizados para minas, fábricas, obras e outras atividades destinadas a sustentar uma máquina de guerra que precisava cada vez mais de pessoas.
Nos últimos anos da ocupação, a guerra transformou trabalhadores coreanos em mão de obra para um império que precisava continuar funcionando
A partir do final dos anos 1930, o Japão estava envolvido em uma guerra cada vez maior. O conflito contra a China se intensificou em 1937 e, depois do ataque a Pearl Harbor em dezembro de 1941, o país entrou diretamente em guerra contra os Estados Unidos e outras potências aliadas.
Manter tudo aquilo funcionando exigia recursos e trabalhadores. Coreanos foram enviados para minas, fábricas, obras e outras instalações no Japão e em territórios controlados pelo império. Os métodos de mobilização mudaram ao longo dos anos e incluíram diferentes graus de coerção, até chegar a mecanismos compulsórios nos anos finais da guerra. Coreanos também foram incorporados ao serviço militar japonês.

Muitos não voltaram para casa, e a questão do trabalho forçado não desapareceu quando a guerra terminou. Décadas depois, as vítimas ainda buscaram indenizações e reconhecimento, inclusive em processos contra empresas japonesas. Em 2018, decisões da Suprema Corte sul-coreana envolvendo empresas como a Nippon Steel voltaram a colocar o tema no centro de uma crise diplomática entre Seul e Tóquio.
É fácil imaginar que, diante de tudo isso, a cultura seria uma preocupação secundária. Mas talvez seja justamente quando alguém tenta decidir qual língua você deve falar, qual nome deve usar e qual identidade deve assumir que cantar uma música conhecida desde a infância deixa de ser algo tão simples. E poucas músicas ajudam a entender essa relação entre memória e identidade coreana tão bem quanto Arirang.
Muito antes de existir K-pop, Arirang já atravessava gerações carregando saudade, separação e uma ideia de Coreia que não desapareceu com a ocupação
Definir Arirang (아리랑) como “uma música tradicional coreana” é correto, mas ainda parece pouco. Não existe uma única versão da canção, nem um compositor que possa reivindicar sua autoria. Diferentes regiões criaram melodias e letras próprias ao longo do tempo, e justamente por isso Arirang acabou se tornando algo compartilhado por gerações.
Um dos momentos mais importantes dessa história aconteceu em 1926, quando o cineasta Na Woon-gyu (나운규) lançou o filme mudo Arirang. Na havia nascido em 1902 e sua juventude também foi atravessada pelo domínio colonial. Antes de se tornar um dos grandes nomes do início do cinema coreano, ele se envolveu com atividades ligadas ao movimento independentista e foi preso pelas autoridades japonesas.
O filme de 1926 acompanhava um jovem traumatizado depois de sofrer com a repressão colonial. Mesmo produzido sob censura, Arirang foi recebido pelo público coreano como algo muito maior do que entretenimento. A canção usada no filme ganhou ainda mais força e passou a carregar também sentimentos ligados à resistência, à saudade e à própria identidade nacional.
Na Woon-gyu morreu em 1937, com apenas 34 anos, e nenhuma cópia completa conhecida do filme chegou até nós. A música teve outro destino. Arirang continuou sendo cantada e atravessou até mesmo a divisão política da península. Em 2012, uma tradição de Arirang da República da Coreia foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade; em 2014, uma tradição da República Popular Democrática da Coreia também recebeu reconhecimento.
É bonito pensar que uma música conseguiu atravessar justamente aquilo que a política não conseguiu. Quando a libertação finalmente chegou em agosto de 1945, havia uma população que ainda compartilhava língua, memórias e canções, mas que em pouco tempo seria separada por uma linha desenhada por potências estrangeiras. É aí que o significado de Gwangbok, a “restauração da luz”, começa a ficar muito mais agridoce.
A luz voltou em 15 de agosto de 1945, mas a libertação não trouxe o final feliz que tantos coreanos haviam esperado durante 35 anos
Em 15 de agosto de 1945, o imperador japonês Hirohito anunciou a rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial. Para os coreanos, significava finalmente o fim do domínio colonial iniciado em 1910. Na República da Coreia, a data se tornaria o Gwangbokjeol, e o próprio nome carrega uma imagem poderosa: gwangbok pode ser entendido como a “restauração da luz”.
Depois de tudo o que aconteceu durante aqueles 35 anos, é fácil imaginar o tamanho da esperança daquele momento. O problema é que a Segunda Guerra terminava justamente quando uma nova disputa internacional começava a tomar forma.
A União Soviética avançava pelo norte da península e os Estados Unidos precisavam definir como seria recebida a rendição das forças japonesas no sul. Foi nesse contexto que os oficiais norte-americanos Dean Rusk e Charles Bonesteel participaram da escolha do paralelo 38 como linha para separar as áreas de ocupação soviética e norte-americana.
A divisão deveria ser temporária. Só que a Guerra Fria transformou o provisório em algo muito mais difícil de desfazer.
Em 15 de agosto de 1948, foi estabelecida ao sul a República da Coreia, com Syngman Rhee como presidente. Em 9 de setembro do mesmo ano, surgiu ao norte a República Popular Democrática da Coreia, liderada por Kim Il-sung.

Depois de 35 anos lutando para recuperar a soberania perdida para o Japão, os coreanos estavam livres do domínio colonial, mas agora viviam em uma península dividida entre dois governos rivais. Cinco anos depois da libertação, aquela linha deixaria de ser apenas uma divisão política e se transformaria em uma guerra.
Uma fronteira que deveria ser temporária virou uma guerra que matou milhões e separou famílias que nunca mais conseguiram voltar para casa
Em 25 de junho de 1950, forças norte-coreanas atravessaram o paralelo 38 e invadiram o Sul, dando início à Guerra da Coreia. O conflito rapidamente deixou de envolver apenas os dois governos coreanos. Forças das Nações Unidas, lideradas pelos Estados Unidos, lutaram ao lado da Coreia do Sul, enquanto a China entrou diretamente na guerra ao lado da Coreia do Norte e a União Soviética ofereceu apoio ao Norte.
Durante três anos, a península foi devastada. Cidades foram destruídas, civis ficaram presos entre avanços e recuos militares e milhões de pessoas morreram, ficaram feridas ou desapareceram. Os números exatos variam, mas estamos falando de uma das guerras mais destrutivas do século XX.

Talvez uma das consequências mais difíceis de imaginar hoje seja a separação de famílias. Pessoas que estavam do lado oposto da fronteira quando ela se fechou simplesmente deixaram de conseguir voltar para casa. Pais perderam contato com filhos, irmãos cresceram em países diferentes e muita gente morreu sem saber o que havia acontecido com quem ficou do outro lado.
Em 27 de julho de 1953, o Acordo de Armistício Coreano interrompeu os combates e estabeleceu a Zona Desmilitarizada, a DMZ, próxima à fronteira que conhecemos hoje. Mas nunca foi assinado um tratado de paz definitivo entre as partes. Mais de sete décadas depois, a península continua dividida.

Talvez agora fique um pouco mais fácil entender por que palavras como saudade, espera, reencontro e esperança aparecem com tanta força em diferentes momentos da cultura coreana. Existe até uma estação do ano que volta de tempos em tempos quando o país precisa imaginar que um período difícil pode acabar: a primavera.
Depois de tantos invernos, a primavera aparece de novo e de novo quando os coreanos falam sobre esperança, mudança e a vontade de finalmente reencontrar alguém
Não existe um significado único de primavera na cultura coreana e seria errado transformar a estação em um símbolo oficial da libertação. Mas ela aparece tantas vezes em momentos diferentes da história, da política e da cultura popular que vale prestar atenção.
Depois do assassinato do presidente autoritário Park Chung-hee, em 26 de outubro de 1979, por exemplo, a expectativa de abertura política ficou conhecida como Primavera de Seul. Estudantes e cidadãos esperavam que o fim de um governo autoritário abrisse caminho para a democracia, mas a esperança durou pouco. O general Chun Doo-hwan ampliou seu controle sobre o país e, em maio de 1980, a repressão ao Levantamento Democrático de Gwangju deixou mortos e marcou profundamente a história sul-coreana.

Décadas depois, a primavera continuaria aparecendo como imagem de mudança e, claro, chegaria também ao K-pop. Em 13 de fevereiro de 2017, o BTS lançou Spring Day (봄날), uma música sobre sentir falta de alguém e esperar pelo fim de um inverno que parece não passar.
A música é frequentemente associada por fãs à tragédia da balsa Sewol, que afundou em 16 de abril de 2014 e deixou 304 mortos, a maioria estudantes. Essa leitura se tornou muito forte culturalmente, embora seja importante não apresentá-la como uma explicação oficial e exclusiva dada pelo BTS para a canção.
O interessante aqui é outra coisa. Mesmo separadas por décadas e contextos completamente diferentes, essas histórias recorrem a uma imagem que qualquer pessoa consegue entender: depois do inverno, existe a esperança de que alguma coisa volte a florescer. Isso conversa de um jeito muito bonito com o próprio Gwangbok, a ideia de recuperar a luz depois de um período de escuridão.
A história coreana, claro, nunca foi tão simples quanto esperar a estação mudar. A libertação foi seguida pela divisão; a divisão terminou em guerra; a reconstrução aconteceu ao lado de décadas de autoritarismo; e a democratização exigiu novas lutas. Ainda assim, aquilo que diferentes gerações tentaram preservar começou a florescer de um jeito que provavelmente ninguém em 1945 conseguiria imaginar.
A cultura que um império tentou assimilar acabou atravessando o planeta e fazendo milhões de pessoas quererem aprender coreano
A Coreia do Sul que saiu da guerra estava devastada e passou pelas décadas seguintes em uma transformação gigantesca, marcada por industrialização acelerada, crescimento econômico e governos autoritários. A democracia avançaria principalmente depois das mobilizações de junho de 1987, que pressionaram o governo por eleições presidenciais diretas e reformas políticas.
Enquanto o país mudava, sua indústria cultural também começou a olhar para fora. A partir principalmente do final dos anos 1990, séries e músicas sul-coreanas ganharam públicos cada vez maiores em outros países asiáticos. O fenômeno ficou conhecido como Hallyu (한류), a Onda Coreana.
O que começou regionalmente ficou cada vez maior. Winter Sonata, lançado em 2002, virou fenômeno em vários países. Depois vieram novas gerações do K-pop, o crescimento do cinema coreano, a popularização da gastronomia, da beleza, da literatura e, claro, dos K-dramas.
Em 2012, PSY fez Gangnam Style explodir mundialmente. Nos anos seguintes, BTS e BLACKPINK ajudaram a levar o K-pop para estádios e premiações globais. Em 2020, Parasita, de Bong Joon-ho, fez história ao se tornar o primeiro filme em língua não inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme. Em 2021, Round 6 colocou uma produção falada majoritariamente em coreano entre os maiores fenômenos televisivos do planeta.
Existe algo muito forte em olhar para isso depois de conhecer o que aconteceu poucas décadas antes. A língua que perdeu espaço nas escolas durante o colonialismo agora é estudada por pessoas que vivem a mais de 18 mil quilômetros de Seul. O Hangul aparece em telões de estádios lotados. Histórias contadas em coreano são assistidas simultaneamente em dezenas de países.
Só que, no Brasil, ficou uma pequena contradição no meio dessa história toda. Aprendemos naturalmente a dizer K-pop, mas continuamos chamando séries coreanas por uma palavra japonesa. E é justamente por isso que precisamos voltar ao “dorama” que trouxe você até aqui.
Se aprendemos a falar K-pop sem nenhuma dificuldade, por que parece tão absurdo pedir que a gente também aprenda a falar K-drama?
Não existe nada errado com a palavra japonesa dorama. Ela vem de ドラマ e é utilizada no Japão a partir do inglês drama. Se estamos falando de produções japonesas, ela está em casa.
A questão é o que aconteceu com a palavra no Brasil. Por aqui, “dorama” acabou virando um guarda-chuva para praticamente qualquer produção asiática. Coreana? Dorama. Chinesa? Dorama. Tailandesa? Dependendo do perfil, também vira dorama.
Talvez a gente precise conversar justamente sobre isso: a Ásia não é um gênero de entretenimento.
Coreia, Japão, China e Tailândia não têm a mesma língua, a mesma história, a mesma indústria audiovisual ou a mesma cultura. Se uma novela brasileira não vira produção mexicana só porque as duas são latino-americanas, não faz muito sentido tratar tudo o que vem da Ásia como uma coisa só.

Isso também não precisa virar uma caça às bruxas contra quem fala dorama. Muita gente conheceu essas produções assim, principalmente em comunidades de fãs que tiveram um papel enorme na popularização do conteúdo asiático no Brasil muito antes de grandes plataformas e marcas perceberem que existia um público interessado. Você pode ter falado dorama durante dez anos sem nenhuma intenção de apagar cultura alguma.
Só que aprender uma informação nova também permite mudar um hábito antigo. E, depois de passar por 1910, Yu Gwan-sun, a repressão ao idioma, Kim Hak-sun, Arirang, 1945, a divisão da península e tudo o que veio depois, fica difícil dizer que diferenciar Coreia e Japão é apenas preciosismo de fã.
É por isso que o 15 de agosto talvez seja um bom momento para fazer uma mudança tão pequena quanto trocar uma palavra.
81 anos depois da libertação, respeitar a cultura que a gente ama pode começar por algo tão simples quanto aprender a chamá-la pelo próprio nome
O Gwangbokjeol não existe para resolver uma discussão brasileira sobre nomenclatura de séries, e reduzir uma data tão importante a isso seria cometer exatamente o erro que esta matéria tenta evitar. O 15 de agosto existe porque pessoas passaram 35 anos desejando recuperar a soberania de seu país e porque outras tantas morreram sem conseguir ver esse dia chegar.
Mas conhecer essa história muda a forma como olhamos para coisas que antes pareciam pequenas.
Entre 1910 e 1945, coreanos viveram sob domínio colonial japonês. Pessoas foram presas e mortas por defender a independência. A língua coreana perdeu espaço nas escolas. Famílias sofreram pressões para adotar nomes japoneses. Trabalhadores foram mobilizados para sustentar o esforço de guerra. Mulheres e meninas foram submetidas à escravidão sexual militar. Estudiosos morreram presos enquanto trabalhavam para preservar o próprio idioma.
A libertação chegou, mas trouxe junto uma divisão que acabaria em guerra. As famílias foram separadas e a península continua dividida mais de 70 anos depois. Ainda assim, aquilo que tantas pessoas tentaram preservar permaneceu vivo e encontrou maneiras de atravessar gerações.
Hoje existem crianças brasileiras aprendendo Hangul. Existem fãs atravessando o país para assistir a artistas sul-coreanos. Tem gente que começou a estudar coreano porque queria entender uma live sem legenda, gente que conheceu Arirang depois do K-pop e gente que descobriu episódios da história da Coreia depois de assistir a um K-drama. Uma cultura que passou por tentativas de assimilação hoje é procurada, estudada e celebrada por milhões de pessoas muito longe da península.
Talvez seja essa a imagem mais bonita para levar do Gwangbokjeol. Depois de tantas rupturas, a cultura coreana encontrou espaço para florescer muito além de suas fronteiras. E quem chegou até ela por uma música, um filme ou uma série também pode fazer parte desse movimento de conhecer melhor aquilo que ama, sem precisar saber tudo de uma vez e sem transformar cada erro em motivo para apontar o dedo.
A gente só precisa estar disposto a aprender. Se já aprendemos a dizer K-pop, kimchi, Hangul e tantos nomes de artistas que um dia pareciam impossíveis de pronunciar, aprender mais uma palavra não deveria ser tão difícil. Quando a produção é japonesa, podemos falar em dorama ou J-drama. Quando é chinesa, C-drama. Quando é tailandesa, Thai drama. E, quando aquela história que fez você virar a noite dizendo “só mais um episódio” veio da Coreia, ela também merece carregar o nome do lugar de onde veio: K-drama.
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Texto revisado por Sabrina Borges de Moura





